Fé e política. Afinal o que farei do meu voto?

Universidad 2016. Plació de Convenciones, La Habana, Cuba. Conferencia magistral de Frei Betto, teólogo de Brasil. 18 de febrero de 2016. Foto: Agustín Borrego Torres.

Ao chegar as eleições e nos depararmos com tantas promessas de um mundo utópico, chamo a atenção dos amigos para a triste realidade política em que vivemos. A política é a arte do bem comum e a sociedade será sempre o que ela for. Lamentavelmente, pelo voto hoje vale tudo e Deus, fica em segundo plano.

Relação Fé e política (por Frei Beto)

Para que servem as Igrejas? Para alguns, meio de extorquir os fiéis e ainda usufruir do privilégio de não pagar impostos. Para outros, modo de dispor de poder revestido de suposta auréola de santidade que tem, como fiador, o próprio Deus. E há quem acredite que da cabeça de Jesus surgiu a Igreja tal qual a conhecemos hoje.

Igreja deriva do grego ‘assembleia’. É a comunidade dos que aderem à proposta de Jesus e acreditam que ela expressa a vontade de Deus. Embora na atualidade as Igrejas se caracterizem por administrar sacramentos, promover cultos ou missas e realizar supostas curas, assegurando aos fieis a salvação, não é isso que transparece na prática de Jesus descrita nos evangelhos. O que vemos ali não é uma instituição, e sim um movimento que, dentro do reino de César, preconizava o projeto do reino de Deus. O de Deus não seria como o de César, onde os pobres eram explorados e pagavam pesados impostos; os doentes, estigmatizados como pecadores e impuros; as mulheres, subjugadas; e a riqueza tida como bênção divina.  O projeto de Deus se resume a uma única moeda com duas faces: no social, partilha dos bens; no pessoal, amor incondicional. É o que retratam os evangelistas.

Como exemplificam os Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo, ser cristão é se empenhar para que todos tenham acesso aos bens necessários a uma vida digna (“entre eles não havia necessitados”) e ser capaz de ver no outro, ainda que ele seja seu inimigo, a face de Deus (“amai os vossos inimigos”).

Em um mundo tão desigual como o de hoje, não há possibilidade de semear as bases do reino de Deus sem fomentar uma política que erradique as disparidades sociais e impeça toda exclusão, inclusive a que deriva de preconceitos e atitudes discriminatórias. Se a justiça é o alicerce da equidade social, o amor é a condição da liberdade na diversidade.

A sociedade da partilha (“todos terem vida e vida em abundância”) só virá como fruto da política fundada na justiça. E a atitude amorosa (“amai o próximo como a si mesmo”) é própria de quem livra o coração dos fardos do egoísmo e da ambição e acredita que, para Deus, o ser supremo é o ser humano. Em síntese, a fé cristã sinaliza o horizonte utópico da política. E a política é, por excelência, a ferramenta de implantação da proposta de Jesus.

É preciso, porém, não confundir a fé com o fundamentalismo que sacraliza lideranças religiosas. Autoritárias, elas demonizam outras convicções religiosas, promovem a violência de culpabilizar a consciência individual na direção da servidão voluntária e incentivam cruzadas, inquisições e guerras “santas”.

A política feita em nome de Deus tem por objetivo, em geral, formar currais eleitorais para empoderar oportunistas que apregoam que Jesus é o Caminho, enquanto eles embolsam o pedágio. O critério para saber se a política se rege pela ética evangélica é simples: ela busca, em primeiro lugar, os direitos dos pobres.

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