Das diferentes formas de pessoas

Há pessoas: que não se aceitam como são e terminam por viver guerreando contra si próprias; vivem noite e dia se culpando e acabam por amargar uma vida de inferno permanente; querem fazer tudo ao mesmo tempo e o que lhes acontece é não fazer bem coisa nenhuma.

Existem pessoas que não abraçam a verdade plena e, por isso, jamais experimentam a beleza e o sabor que ela proporciona; tem nojo de política, ignorando ser a política a arte do bem comum e que a sociedade será sempre aquilo que ela for; abandonam a prática da fé por causa do erro deste ou daquele padre, como se a medicina deixasse de ser ciência só por causa do deslize de alguém que a exerce.

Há pessoas: que não gostam de proclamar as virtudes do seu semelhante, mesmo sabendo que cada estrela brilha com seu próprio brilho e que os homens são como as velas: se acendem uns nos outros; se negam a ensinar o que sabe aos demais, esquecidas de que a ciência que possuem não a perdem quando a transmitem; que se julgam sempre infelizes, por não verem que o número de coisas boas que lhes acontecem é superior ao número de coisas ruins que costuma lhes acontecer; que, pessimistas por natureza, só vêm a escuridão e não o esplendor das estrelas que nela brilham, vêm as distâncias e não os transportes que as encurtam, vêm o bisturi que corta e não a medicação que cura.

Existem pessoas: que vivem eternamente falando mal dos governos, mas nem por isso sabem administrar bem sua própria casa; acham que os generosos, os mansos, os pacíficos e desprendidos merecem imitação, mas eles próprios não os imitam; vão duas, três, quatro, cinco vezes a um templo, mas nunca se lembram de destinar alguma coisa para sua manutenção, como se esta pudesse ser feita com dinheiro caído do céu.

Por outro lado, existem pessoas outras que se solidarizam com as alegrias e sofrimento do próximo e, por isso mesmo, tornam menores estes e maiores aquelas; andam quilômetros para servir e, quando tal lhes acontece, sorriem por conta da felicidade, que consiste em dar e não em receber; quando pais desde cedinho transmitem Deus aos filhos conscientes de que criança que não ocupa o seu espaço com Ele termina por ocupá-lo com quem é contra Ele; sabem sempre dar um jeito quando se trata de resolver situações difíceis, porque são mestres em não complicar as coisas simples e em simplificar as coisas complicadas.

Há pessoas para as quais irradiar júbilo é um propósito, ajudar os outros é um compromisso, não guardar rancor é resolução da qual não se afastam, visitar os sofridos é tarefas que cumprem com o maior escrúpulo sempre convencidas de que a melhor maneira de suportar o próprio sofrimento é partir para diminuir o dos outros.

Existem pessoas: que agradecem tudo que recebem e, com esse gesto, duplicam o bem, pois, além do que foi feito, nelas passa a existir o que fazem aos outros; logram feliz êxito no seu trabalho com jovens, porque os encaram como poder, jamais como ameaça; são capazes de lhes dizer “sim”, mas igualmente de lhes dizer “não” no momento necessário de uma coisa ou de outra.

Há pessoas: que alcançam alto grau de sabedoria, quando percebem que são necessárias as rosas que enfeitam a vida e são necessários os espinhos, porque defendem as rosas; são necessários os mestres, porque nos levam a pensar e são necessários os palhaços porque nos fazem rir; são necessários os dias tristes porque nos levam a valorizar os alegres e são necessários os alegres porque nos levam a suportar melhor os tristes; são necessários os santos, porque atestam a pureza de Deus e são necessários os pecadores, porque tolerando-os está comprovada a Sua imensa misericórdia.

Padre José Gilberto de Luna (em memória)

Arquidiocese de São Salvador (Ba)

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